Exploração Infantil

“Tenho sete anos”

Olá, meu nome é Emília e vivo numa ilha do Caribe. Tenho sete anos. Tempos atrás meus pais, que são muito pobres, entregaram-me a uma família rica da cidade.
Hoje, como todos os dias, levantei-me às cinco horas da manhã. Apanhei água de um poço vizinho. Foi muito difícil equilibrar a pesada jarra na cabeça, mas consegui — senão eu teria levado uma surra. Daí, preparei o café da manhã e o servi à família. Eu estava um pouquinho atrasada com o serviço, de modo que o dono da casa me bateu com uma correia de couro.
Depois fui a pé levar o filho de cinco anos da família à escola. Em seguida, ajudei a preparar e a servir o almoço da família. Entre as refeições, tive de comprar alimentos no mercado, fazer pequenos serviços de rua, cuidar do carvão para o fogo, varrer o quintal, lavar roupa e louça e limpar a cozinha. Também lavei os pés da dona da casa. Hoje ela estava muito irritada com alguma coisa e, por isso, me deu um tapa. Espero que amanhã ela esteja melhor.
Deram-me para comer as sobras da comida — pelo menos foi melhor do que o cozido de fubá de ontem. Minhas roupas estão esfarrapadas, e não tenho sapatos. Meus patrões nunca me deixam tomar banho com a água que eu trago à família. Na noite passada dormi fora da casa; às vezes me permitem dormir dentro da casa, no chão. Lamento não ter podido escrever eu mesma. Não me deixam ir à escola.
Tenham um bom dia. Emília.
EMBORA seu nome verdadeiro não seja Emília, seu drama é bem real. Ela é apenas uma dos milhões de crianças que precisam trabalhar — muitas vezes sob condições terríveis. O trabalho infantil é um dos maiores desafios atuais. É uma questão complexa, sem soluções simples. De proporções enormes, corrosivo para a sociedade e de conseqüências desastrosas, é cruel para com as crianças e um insulto à dignidade humana.

Quão amplo é o problema do trabalho infantil? Quais são as suas raízes, e que formas assume? Virá o dia em que as crianças — o mais delicado e vulnerável segmento da família humana — não mais serão sujeitas a uma vida de desgraças e exploração?

Com o suor de crianças

“As crianças, agora parte do processo produtivo, são tratadas como bens econômicos, em vez de como futuro da sociedade.” — Chira Hongladarom, diretor do Instituto de Recursos Humanos, Tailândia.
NA PRÓXIMA vez que comprar uma boneca para sua filha, lembre-se de que ela pode ter sido fabricada por criancinhas no sudeste asiático. Na próxima vez que seu filho chutar uma bola de futebol, reflita no fato de que ela pode ter sido costurada por uma menina de três anos que, junto com a mãe e quatro irmãs, ganha 75 centavos de dólar por dia. Na próxima vez que comprar um tapete, considere que este talvez tenha sido tecido pelos ágeis dedos de meninos de seis anos, que trabalham muitas horas todos os dias, sob condições abusivas.
Quão comum é o trabalho infantil? O que causa às crianças? Como resolver a situação?

A extensão do problema

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que existam, nos países em desenvolvimento, 250 milhões de crianças trabalhadoras de 5 a 14 anos. Acredita-se que 61% delas se encontrem na Ásia, 32% na África e 7% na América Latina. O trabalho infantil existe também em países industrializados.
No sul da Europa há muitas crianças assalariadas, especialmente em atividades sazonais, como na agricultura e em pequenas fábricas. Recentemente, o trabalho infantil aumentou na Europa Central e Oriental, com a transição do comunismo para o capitalismo. Nos Estados Unidos, o número oficial de crianças trabalhadoras é 5,5 milhões, mas isso não inclui as muitas crianças com menos de 12 anos que trabalham ilegalmente em firmas que exploram a mão-de-obra barata, ou como trabalhadores temporários e migrantes em grandes fazendas. Como é que esses milhões de crianças ingressam na força de trabalho?

As causas do trabalho infantil

Exploração da pobreza. “A força mais poderosa que impele as crianças ao trabalho perigoso e debilitante é a exploração da pobreza”, diz o relatório Situação Mundial da Infância 1997. “Para famílias pobres, a pequena renda da criança ou a sua ajuda no lar (que permite que os pais trabalhem fora) pode ser a diferença entre passar fome e a mera subsistência.” Em muitos casos, os pais de crianças que trabalham são desempregados ou subempregados. Desejam desesperadamente uma renda segura. Por que, então, são os filhos que arrumam emprego? Porque para as crianças pode-se pagar menos. Porque elas são mais dóceis e maleáveis — muitas farão qualquer coisa que se lhes mandar, raramente questionando a autoridade. Porque é menos provável que elas organizem resistência contra a opressão. E porque em geral não revidam aos abusos físicos.
Falta de instrução. Sudhir, um menino indiano de 11 anos, é um dentre os milhões de crianças que abandonaram a escola para trabalhar. Por quê? “Os professores não ensinavam direito”, responde. “Se pedíamos que nos ensinassem o abecê, eles batiam em nós. Eles dormiam na sala de aula. . . . Quando não entendíamos algo, eles não nos explicavam.” A avaliação que Sudhir faz da escola é tragicamente correta. Em países em desenvolvimento, os cortes nos gastos sociais têm atingido de maneira especialmente dura a educação. Uma pesquisa da ONU, realizada em 1994 em 14 países menos desenvolvidos, descobriu alguns fatos reveladores. Por exemplo, em metade desses países, as salas de aula da primeira série têm carteira apenas para 4 de cada 10 alunos. Metade dos alunos não tem livros e metade das salas de aula não tem quadro-negro. Não é para menos que muitos alunos dessas escolas as abandonem para trabalhar.
Conceitos tradicionais. Quanto mais perigoso e duro for o trabalho, maior a probabilidade de que este seja confiado às minorias étnicas, às classes mais baixas, aos menos favorecidos e aos pobres. Sobre certo país asiático, diz o Fundo das Nações Unidas para a Infância: “O conceito predominante é que alguns nascem para governar e trabalhar com a mente, ao passo que outros, a vasta maioria, nasce para trabalhar com o corpo.” No Ocidente, as atitudes nem sempre são muito melhores. Os da classe dominante talvez não queiram que seus filhos realizem trabalhos perigosos, mas não perdem o sono quando crianças de minorias raciais, étnicas ou econômicas realizam tais serviços. No norte da Europa, por exemplo, os trabalhadores mirins provavelmente são turcos ou africanos; nos Estados Unidos, talvez sejam asiáticos ou latino-americanos. O trabalho infantil é agravado por uma moderna sociedade consumista. A procura de produtos baratos é grande, mas poucos parecem se importar que esses talvez sejam produzidos por milhões de crianças anônimas e exploradas.

Tipos de trabalho infantil

Quais são as formas de trabalho infantil? A ampla maioria das crianças trabalhadoras presta serviços domésticos. Elas têm sido chamadas de “as crianças mais esquecidas [desamparadas] do mundo”. Os serviços domésticos não são necessariamente perigosos, mas muitas vezes o são. Crianças em servidão doméstica em geral ganham muito pouco — ou nada. Os termos e as condições de trabalho ficam inteiramente à mercê dos patrões. As crianças são privadas de afeto, de instrução, do direito de brincar e de atividades sociais. São também vulneráveis a abusos físicos e sexuais.
Outras crianças caem na categoria de trabalhadores coagidos e penhorados. No sul da Ásia, bem como em outras regiões, as crianças, muitas de apenas oito ou nove anos, são oferecidas como garantia a donos de fábrica ou a seus representantes em troca de pequenos empréstimos. A servidão vitalícia das crianças nunca consegue nem mesmo reduzir a dívida.
Que dizer da exploração sexual comercial de crianças? Estima-se que anualmente no mundo pelo menos um milhão de meninas são atraídas ao comércio do sexo. Meninos também são explorados sexualmente. Os danos físicos e emocionais causados por esse tipo de abuso — sem falar da infecção pelo HIV — faz desta uma das mais tenebrosas formas de trabalho infantil. “Para a sociedade somos apenas vagabundos”, diz uma prostituta de 15 anos, do Senegal. “Ninguém quer nos conhecer ou ser visto conosco.”
Uma alta porcentagem de crianças são exploradas no trabalho industrial e agrícola. Elas labutam em operações de mineração que seriam consideradas arriscadas demais para adultos. Muitas sofrem de tuberculose, bronquite e asma. As que trabalham em plantações são expostas a pesticidas e a picadas de cobra e de insetos. Algumas ficaram mutiladas no corte de cana com facões. Milhões de outras trabalham nas ruas. Como Shireen, por exemplo, uma catadora de papel de 10 anos. Ela nunca foi à escola, mas é bem versada na economia da sobrevivência. Se ela vende 30 a 50 centavos (de dólar) de papel ou sacos de plástico velhos, ela consegue algo para comer. Se ganha menos, fica sem comida. Muitas crianças, que fugiram de abusos e negligência em casa, continuam a sofrer abusos e exploração nas ruas. “Rezo todos os dias para não cair nas mãos de gente ruim”, diz Josie, de dez anos, que vende doces nas movimentadas ruas duma cidade asiática.

Infância arruinada

Esses tipos de trabalho infantil expõem dezenas de milhões de crianças a sérios perigos, que talvez decorram da natureza do serviço ou de péssimas condições de trabalho. Trabalhadores infanto-juvenis tendem a sofrer mais acidentes de trabalho do que os adultos, porque a anatomia duma criança é diferente da de um adulto. O serviço pesado pode facilmente deformar a coluna ou a pélvis. Também, as crianças sofrem mais do que os adultos quando são expostas a substâncias químicas perigosas ou à radiação. Além disso, elas não estão fisicamente aptas para muitas horas de trabalho estrênuo e monótono, a que muitas vezes estão sujeitas. Em geral, elas não têm noção dos perigos e sabem pouco sobre as precauções a tomar.
Graves também são os efeitos do trabalho infantil sobre o desenvolvimento psicológico, emocional e intelectual das vítimas. Tais crianças não recebem afeto. Surras, insultos, ficar sem comer como castigo e abusos sexuais são muito comuns. Segundo um estudo, mais ou menos a metade dos cerca de 250 milhões de crianças trabalhadoras abandonou a escola. Observou-se também que longas jornadas de trabalho podem dificultar a aprendizagem das crianças.
O que significa tudo isso? Que a maioria das crianças trabalhadoras está condenada a uma vida de pobreza, sofrimento, doença, analfabetismo e exclusão social sem fim. Ou, como disse a jornalista Robin Wright, “apesar de seus avanços científicos e tecnológicos, o mundo no fim do século 20 está produzindo milhões de crianças que não têm esperança de levar uma vida normal, muito menos de conduzir o mundo para o século 21”. Essa reflexão séria suscita as perguntas: como se deve tratar as crianças? Há soluções iminentes para o problema do trabalho infantil abusivo?

Em geral, a OIT estabelece 15 anos como idade mínima para permitir que crianças trabalhem — contanto que 15 anos não esteja abaixo da idade de completar os anos de escola obrigatórios. Este tem sido o padrão mais usado para determinar quantas crianças trabalham no mundo.
Para mais informações sobre exploração sexual de crianças, veja a Despertai! de 8 de abril de 1997, páginas 11-15.

O que é trabalho infantil?

  A MAIORIA das crianças em todas as sociedades trabalha, de uma maneira ou de outra. Os tipos de trabalho variam de acordo com as sociedades e a época. O trabalho pode ser uma parte essencial na formação da criança e uma maneira de os pais transmitirem aos filhos habilidades vitais. Em alguns países, as crianças muitas vezes trabalham em pequenas fábricas ou oficinas e acabam se tornando verdadeiros profissionais mais tarde na vida. Em outros países, adolescentes trabalham algumas horas por semana para ter seu próprio dinheiro. O Fundo das Nações Unidas para a Infância afirma que esse trabalho “é benéfico, pois promove ou reforça o desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral ou social da criança sem prejudicar a educação, a recreação e o descanso”.
  Trabalho infantil, no entanto, refere-se a crianças que trabalham muitas horas por baixos salários, não raro em condições insalubres. Esse tipo de trabalho “é claramente destrutivo ou explorador”, diz o relatório Situação Mundial da Infância 1997. “Ninguém defenderia publicamente que explorar crianças como prostitutas seja de algum modo aceitável. Pode-se dizer o mesmo a respeito de trabalho infantil ‘penhorado’ que, na verdade, é escravizar crianças para saldar dívidas contraídas por seus pais ou avós. Isso também se aplica a indústrias notórias pelos terríveis riscos que apresentam à saúde e à segurança . . . Trabalho perigoso é simplesmente intolerável para toda criança.”

“Ainda há muito o que fazer”

  A ORGANIZAÇÃO Internacional do Trabalho (OIT) lidera esforços para eliminar as piores formas de trabalho infantil. Ela estimula os governos a criar leis que proíbam o trabalho formal de crianças com menos de 15 anos. Promove também novos acordos para proibir crianças trabalhadoras com menos de 12 anos e tornar ilegal as formas de exploração mais perigosas. Para saber mais a respeito dos resultados desses esforços, Despertai! falou com Sonia Rosen, diretora do Programa Internacional de Trabalho Infantil, do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos. Ela tem acompanhado de perto vários programas da OIT. A seguir, alguns trechos da entrevista.
  P.: Qual é a melhor maneira de combater o trabalho infantil?
R.: Não temos uma solução única, infalível. Mas, no plano internacional, discutimos questões fundamentais, como adequada aplicação da lei conjugada com educação primária universal, preferivelmente obrigatória e grátis. E, é claro, também é vital que os pais tenham bons empregos.
  P.: A senhora está satisfeita com os resultados já obtidos na luta contra o trabalho infantil?
R.: Nunca estou satisfeita. Costumamos dizer que uma única criança trabalhando sob condições abusivas já é demais. Fizemos grandes avanços com os programas da OIT. Mas ainda há muito o que fazer.
  P.: Qual é a reação da comunidade internacional aos esforços de eliminar o trabalho infantil?
R.: Não sei mais como responder a essa pergunta. Ao redor do mundo existe agora um certo consenso de que o trabalho infantil é um problema. Acho que a essa altura as perguntas realmente são: Como encará-lo, e com que rapidez? Quais são as melhores ferramentas para combater certos tipos de trabalho infantil? Penso que esse é o nosso verdadeiro desafio.
  P.: Que expectativas podem ter as crianças trabalhadoras?
R.: Todos os países voltarão a Genebra este ano para concluir um novo acordo a respeito das piores formas de trabalho infantil. Isso realmente é uma enorme esperança — todos os países, mais as organizações de trabalhadores e as de empregadores. Espera-se que isso crie uma nova estrutura voltada à erradicação das piores formas de trabalho infantil.
  Nem todos partilham o otimismo de Sonia Rosen. Charles MacCormack, presidente da organização Save the Children (Salvem as Crianças), tem suas reservas. “Não existe vontade política nem conscientização pública suficientes para que isso aconteça”, diz ele. Por quê? O Fundo das Nações Unidas para a Infância observa: “O trabalho infantil muitas vezes é uma questão complexa. É apoiado por forças poderosas, incluindo muitos empregadores, grupos de interesses próprios, economistas que defendem a idéia de que o mercado tem de permanecer livre a todo o custo, e tradicionalistas que acreditam que a casta, ou a classe, de certas crianças privam-nas de direitos.”

“As crianças são frágeis”

‘As crianças são frágeis. Caminharei devagar, ao passo das crianças.’ — Jacó, pai de muitos filhos, século 18 AEC.
MALTRATAR crianças não é nada novo. Antigas civilizações — como a dos astecas, dos cananeus, dos incas e dos fenícios — têm uma péssima reputação devido à prática de sacrifícios de crianças. Escavações na cidade fenícia de Cartago (hoje um subúrbio de Túnis, norte da África) revelaram que entre o quinto e o terceiro séculos AEC pelo menos 20.000 crianças foram sacrificadas ao deus Baal e à deusa Tanit! Esse número é ainda mais arrepiante quando se leva em conta que, segundo consta, no seu apogeu Cartago tinha apenas uns 250.000 habitantes.
Contudo, havia uma antiga sociedade que era diferente. Embora vivesse cercada de vizinhos cruéis para com as crianças, a nação de Israel destacou-se como diferente nesse aspecto. O pai dessa nação, o patriarca Jacó, deu o exemplo. Segundo o livro bíblico de Gênesis, ao voltar para a sua terra, Jacó ajustou o passo de toda a sua caravana para que a viagem não fosse muito pesada para os menores. “As crianças são frágeis”, disse ele. Seus filhos tinham então de 5 a 14 anos. (Gênesis 33:13, 14, Ecumênica) Seus descendentes, os israelitas, também respeitavam as necessidades e a dignidade dos menores.
Certamente, as crianças nos tempos bíblicos tinham muito o que fazer. À medida que os meninos cresciam, o pai lhes ensinava agricultura ou um ofício, como a carpintaria. (Gênesis 37:2; 1 Samuel 16:11) No lar, as meninas aprendiam das mães as prendas domésticas, valiosas na vida adulta. Raquel, a esposa de Jacó, era pastora de ovelhas quando mocinha. (Gênesis 29:6-9) Moças trabalhavam nas colheitas de cereais e nos vinhedos. (Rute 2:5-9; Cântico de Salomão 1:6) Geralmente, esse trabalho era realizado sob a supervisão amorosa dos pais e era conjugado com a educação.
Ao mesmo tempo, as crianças em Israel conheciam as alegrias da descontração e dos divertimentos. O profeta Zacarias falou de ‘praças públicas cheias de meninos e de meninas brincando’. (Zacarias 8:5) E Jesus Cristo falou de criancinhas que se sentavam nas feiras, tocavam flauta e dançavam. (Mateus 11:16, 17) O que havia por trás dessa maneira digna de tratar as crianças?

Princípios elevados

Enquanto obedeciam às leis de Deus, os israelitas jamais abusavam de seus filhos ou os exploravam. (Compare Deuteronômio 18:10 com Jeremias 7:31.) Eles encaravam seus filhos como “herança da parte de Jeová”, “uma recompensa”. (Salmo 127:3-5) Pais comparavam seus filhos a ‘mudas de oliveira ao redor de sua mesa’ — e oliveiras eram preciosíssimas naquela sociedade agrícola. (Salmo 128:3-6) Segundo o historiador Alfred Edersheim, além das palavras para “filho” e “filha”, o hebraico antigo tinha nove palavras para “criança”, cada qual para um estágio diferente na vida. Ele conclui: “Sem dúvida, os que com tanta intensidade acompanhavam a vida infantil, a ponto de dar uma classificação pictórica a cada estágio de sua existência, deviam ser pessoas que se apegavam com ternura aos filhos.”
Na era cristã, os pais eram admoestados a tratar os filhos com dignidade e respeito. Jesus deu um ótimo exemplo nos seus tratos com os filhos de outros. Certa vez, perto do fim de seu ministério terrestre, as pessoas começaram a trazer seus filhos a ele. Evidentemente achando que Jesus era ocupado demais e não devia ser incomodado, os discípulos tentaram impedir as pessoas de fazer isso. Mas Jesus corrigiu seus discípulos, dizendo: “Deixai vir a mim as criancinhas; não tenteis impedi-las.” Jesus até “tomou as criancinhas nos seus braços”. Indubitavelmente, ele encarava as crianças como preciosas e merecedoras de bons tratos. — Marcos 10:14, 16; Lucas 18:15-17.
Mais tarde, o apóstolo Paulo disse aos pais: “Não estejais exasperando os vossos filhos, para que não fiquem desanimados.” (Colossenses 3:21) Em harmonia com essa ordem, os pais cristãos daquele tempo e de hoje jamais permitiriam que seus filhos trabalhassem sob condições abusivas. Eles sabem que o desenvolvimento físico, emocional e espiritual das crianças depende de um ambiente amoroso, prestimoso e seguro. O verdadeiro amor dos pais deve ser evidente. Isso inclui proteger os filhos de condições de trabalho debilitantes.

Realidades modernas

Naturalmente, nossos tempos são “críticos, difíceis de manejar”. (2 Timóteo 3:1-5) Devido a duras realidades econômicas, em muitos países até mesmo famílias cristãs talvez achem necessário que seus filhos trabalhem. Como já mencionado, não há nada de errado com o trabalho que seja sadio e educativo para as crianças. Tal trabalho pode promover ou fortalecer o desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral ou social da criança sem prejudicar os estudos, a recreação equilibrada e o necessário descanso.
Sem dúvida, os pais cristãos querem que seus filhos trabalhem sob a sua própria supervisão prestimosa, em vez de como verdadeiros escravos de feitores cruéis, insensíveis ou inescrupulosos. Tais pais querem ter certeza de que o trabalho de seus filhos não os exponha a abuso físico, sexual ou emocional. Querem também ter seus filhos perto deles. Desse modo podem cumprir o papel de educadores espirituais, que a Bíblia lhes atribui: ‘Tens de inculcar as instruções de Deus a teu filho, e falar delas sentado na tua casa, andando pela estrada, ao deitar-te e ao levantar-te.’ — Deuteronômio 6:6, 7.
Ademais, o cristão deve usar de empatia, ser afetuoso e ternamente compassivo. (1 Pedro 3:8) Ele é incentivado a ‘fazer o que é bom para com todos’. (Gálatas 6:10) Se essas qualidades divinas devem ser demonstradas para com as pessoas em geral, quanto mais para com os filhos! Em harmonia com a Regra de Ouro (‘todas as coisas que quereis que os homens vos façam, vós também tendes de fazer do mesmo modo a eles’), os cristãos jamais explorariam os filhos dos outros, sejam ou não adoradores de Jeová. (Mateus 7:12) Além disso, sendo respeitadores da lei, os cristãos devem obedecer às normas governamentais de limite de idade para quem trabalha para eles. — Romanos 13:1.

A verdadeira solução

Que dizer do futuro? Dias melhores virão, tanto para as crianças como para os adultos. Os cristãos verdadeiros estão convictos de que a solução permanente para o problema do trabalho infantil é um vindouro governo mundial chamado de “reino dos céus” na Bíblia. (Mateus 3:2) Pessoas tementes a Deus há séculos o pedem quando oram: “Nosso Pai nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu reino. Realize-se a tua vontade, como no céu, assim também na terra.” — Mateus 6:9, 10.
Entre outras coisas, esse Reino removerá as condições que levam à exploração do trabalho infantil. Ele erradicará a pobreza. “A própria terra dará certamente a sua produção; Deus, nosso Deus, nos abençoará.” (Salmo 67:6) O Reino de Deus cuidará de que todos recebam a educação adequada, baseada em qualidades divinas. “Quando há julgamentos [divinos] para a terra, os habitantes do solo produtivo certamente aprenderão a justiça.” — Isaías 26:9.
O governo de Deus eliminará os sistemas econômicos que fomentam a desigualdade. Ninguém mais será discriminado por causa de raça, condição social, idade ou sexo, pois a lei predominante desse governo será a lei do amor, incluindo o mandamento: “Tens de amar o teu próximo como a ti mesmo.” (Mateus 22:39) Sob esse governo mundial justo, o problema do trabalho infantil será totalmente eliminado!

Isso não rebaixava as mulheres a membros de família de segunda classe, aptos apenas para serviços domésticos ou agrícolas. A descrição da “esposa capaz”, em Provérbios, mostra que a mulher casada podia não só administrar uma casa, mas também realizar transações imobiliárias, cultivar a terra e cuidar de um pequeno negócio. — Provérbios 31:10, 16, 18, 24.

Uma dona de bordel liberta as moças

  POR 15 anos, Cecília era dona de bordéis e os operava numa ilha caribenha. Ela comprava, de uma vez, 12 a 15 moças, a maioria delas menores de 18 anos. As moças eram detidas contra a vontade delas, para saldar dívidas de suas famílias. Cecília pagava as dívidas e levava as moças para trabalhar para ela. Com o dinheiro que elas ganhavam, Cecília pagava o sustento delas e retinha certa quantia para abater o débito da compra original. Levava anos para que as moças recuperassem a liberdade. Elas jamais podiam sair da casa sem a companhia de um guarda.
  Cecília lembra-se muito bem de certo caso. A mãe de uma das moças vinha toda semana apanhar caixas de alimentos — comprados com o dinheiro do “trabalho” da filha. Essa moça estava criando um filho. Ela não conseguia saldar as dívidas, e não esperava ser libertada algum dia. Ela se suicidou, deixando um bilhete confiando o filho aos cuidados da dona do bordel. Esta criou o menino, junto com seus próprios quatro filhos.
  Uma das filhas de Cecília começou a estudar a Bíblia com missionários das Testemunhas de Jeová. Cecília foi incentivada a participar no estudo, mas, de início se recusou, pois não sabia ler. Aos poucos, porém, pelo que ouvia por alto das palestras bíblicas, ela veio a compreender o amor e a paciência de Deus e a prezar o Seu perdão. (Isaías 43:25) Desejando estudar pessoalmente a Bíblia, ela logo começou a aprender a ler e a escrever e, à medida que ganhava mais conhecimento bíblico, foi vendo a necessidade de ajustar-se aos elevados padrões morais de Deus.
  Certo dia, para surpresa das moças, ela disse-lhes que estavam livres! Explicou-lhes que o que faziam desagradava a Jeová. Nenhuma delas jamais pagou o que lhe devia. Contudo, duas passaram a morar com ela. Outra, com o tempo tornou-se Testemunha de Jeová batizada. Agora, há 11 anos Cecília ensina a Bíblia por tempo integral, ajudando outros a se libertarem de práticas que desonram a Deus.

Publicado em Despertai! de 22 de Maio de 1999